“Eles andam aí. Os vampiros. Estão por todo o lado!”, gritava o homem esbaforido a entrar de rompante no café. Eu folheava os jornais e bebia café, apenas desassossegado com as notícias do mundo, numa manhã de sábado soalheira. “Eles andam aí. Por toda a parte”. E os clientes expectantes olhavam-no. Apenas um casal no fundo da sala continuava indiferente ao arauto dos vampiros, demasiado alheado dos outros. Ele tocando os dedos dela como se os beijasse com os seus e parecendo que os contava, na procura de qualquer imperfeição que lhe parecia impossível. Ela sorria. “Eles andam aí”, repetia o homem. E o dono do estabelecimento interferiu. “Claro. Estão na moda. Não há canal de televisão que não tenha agora uma série de vampiros”. “É lá isso o que eu estou para aqui a pregar! Isso são filmes. Esses vampiros são inofensivos. Refiro-me aos outros”. E os clientes impacientavam-se agora que a hipótese aventada pelo dono do café e afinal partilhada por todos fora rejeitada. De que pregava o homem afinal?
“De vampiros. Mas dos verdadeiros. Eles voltaram”. “Aqui há caso de psiquiatria”, parecia ler-se no rosto de vários clientes e eu anuía em silêncio. “Então não são vampiros os tipos que tiraram a linha da Lousã e agora nem há automotora nem Metro? E o novo Pediátrico que afinal vai ter uma maternidade e do hospital pediátrico previsto a ver vamos. Quanto à inauguração, será quando eles quiserem. Se não são vampiros, o que são? E querem acabar com o serviço nacional de saúde e a educação universais e gratuitos. E despedir de qualquer maneira. O que são eles, afinal?” Desanuviara-se o ambiente, com os clientes sorrindo, em unânime concordância. Ou quase. Apenas o par do fundo da sala continuava sorrindo, mas no namoro de dedos. Ele repetindo as carícias, dedo a dedo, correndo-os com os seus como se acariciasse todo o corpo dela e contava-os. “São cinco! Mas têm de ser seis, linda! Algum defeito hás-de ter.” E ela sorria, feliz. “Então são ou não são vampiros, digam lá! Diga lá o senhor – voltara-se para mim – que é pessoa de leituras. Diga!” E eu disse.
Numa mesa, sozinho, até então em silêncio, um velhote que bebia taças de vinho tinto deu em cantarolar: “No céu cinzento sob o astro mudo/batendo as asas pela noite calada/Vêm em bandos com pés de veludo/Chupar o sangue fresco da manada/Se alguém se engana com seu ar sisudo/E lhes franqueia as portas à chegada/Eles comem tudo, eles comem tudo/Eles comem tudo e não deixam nada.”
“Ouves a música? – perguntou-lhe ela. E ele respondeu-lhe sem parar de lhe amar os dedos: “São os vampiros!”
segunda-feira, julho 26, 2010
Os vampiros (Francisco Queiroz)
domingo, julho 04, 2010
José Saramago!
Estou convencido de que há que continuar dizendo não, ainda que se trate de uma voz pregando no deserto.
Juan Arias, José Saramago: El amor posible, Barcelona, Planeta, 1998
terça-feira, janeiro 05, 2010
Tico! ;-(
Este gatinho lindo e dócil tinha uns donos que nunca quiseram saber dele...
Este gatinho lindo e dócil já andava adoentado, mas nunca quiseram saber...
Este gatinho lindo e dócil piorou drasticamente nestes últimos dias e acabou por ter de levar uma injecção que pôs fim à sua triste sina...
Este gatinho lindo e dócil nunca teria chegado a este estado se tivesse tido uns donos mais humanos...
Este gatinho lindo e dócil teve a sorte, apesar de tudo, de conhecer a minha mãe, que o acarinhou e teve a coragem de o levar, mesmo sem o conhecimento dos donos, à Associação Louzanimales para acabar com todo este sofrimento...
Este gatinho lindo e dócil valia muito mais do que os seus donos, disso não tenho dúvidas!
Este gatinho tinha um nome: Tico!
Este gatinho lindo e dócil piorou drasticamente nestes últimos dias e acabou por ter de levar uma injecção que pôs fim à sua triste sina...
Este gatinho lindo e dócil nunca teria chegado a este estado se tivesse tido uns donos mais humanos...
Este gatinho lindo e dócil teve a sorte, apesar de tudo, de conhecer a minha mãe, que o acarinhou e teve a coragem de o levar, mesmo sem o conhecimento dos donos, à Associação Louzanimales para acabar com todo este sofrimento...
Este gatinho lindo e dócil valia muito mais do que os seus donos, disso não tenho dúvidas!
Este gatinho tinha um nome: Tico!
segunda-feira, dezembro 28, 2009
O amanhã é sempre melhor ...
É comum ouvirmos as pessoas mais velhas dizerem que a juventude está perdida e que antigamente é que era bom. Conversas de velhinhos com pantufas de lã nos pés ou de indivíduos que ainda defendem, vá-se lá saber o motivo!, a existência de um novo Salazar para pôr o país na ordem.
Sinceramente, até acho uma certa piada ao modo de pensar dessa gente conservadora, presa ao passado e que se julga detentora da suprema sabedoria. Faz-lhes falta, sem dúvida, uma certa perspectiva histórica, pois já os autores clássicos diziam que os jovens estavam a perder os bons costumes, já não respeitavam os mais velhos e as leis.
Enfim, todas as gerações adoptam o preconceito doentio de que a geração posterior à sua é sempre pior, mas não nos podemos deixar ir em cantigas. Hoje é muito melhor do que ontem. As nossas crianças têm uma educação muito mais completa da que nós tivemos. As nossas crianças não são obrigadas a reproduzir, tal como papagaios, os rios e as serras de Portugal. As nossas crianças aprendem a pensar por elas próprias e a não aceitar conformadamente tudo aquilo que os adultos lhes tentam, a todo o custo, impingir.
Por isso, não dêem ouvidos a todos aqueles que elogiam o “antigamente” de uma forma saudosista.
O amanhã, ainda que não sendo perfeito, é sempre melhor que o ontem!
Sinceramente, até acho uma certa piada ao modo de pensar dessa gente conservadora, presa ao passado e que se julga detentora da suprema sabedoria. Faz-lhes falta, sem dúvida, uma certa perspectiva histórica, pois já os autores clássicos diziam que os jovens estavam a perder os bons costumes, já não respeitavam os mais velhos e as leis.
Enfim, todas as gerações adoptam o preconceito doentio de que a geração posterior à sua é sempre pior, mas não nos podemos deixar ir em cantigas. Hoje é muito melhor do que ontem. As nossas crianças têm uma educação muito mais completa da que nós tivemos. As nossas crianças não são obrigadas a reproduzir, tal como papagaios, os rios e as serras de Portugal. As nossas crianças aprendem a pensar por elas próprias e a não aceitar conformadamente tudo aquilo que os adultos lhes tentam, a todo o custo, impingir.
Por isso, não dêem ouvidos a todos aqueles que elogiam o “antigamente” de uma forma saudosista.
O amanhã, ainda que não sendo perfeito, é sempre melhor que o ontem!
segunda-feira, setembro 28, 2009
terça-feira, maio 12, 2009
domingo, março 15, 2009
Há coisas que me ultrapassam!
Há dias, e a propósito do então em curso Concurso Nacional de Professores, uma professora de uma das escolas onde dou aulas, mostrou os seus receios e dúvidas face ao preenchimento do formulário de candidatura. Disse-lhe que por vezes também me surgiam algumas dúvidas, mas que o site em questão dispunha de manuais de preenchimento com informações muito úteis e que, por esse motivo, não tinha de sentir qualquer receio. Não a consegui convencer, pois no final da conversa, apenas me disse que lá teria de perder novamente umas horas no Sindicato, para a ajudarem a concorrer. Posto isto só me pergunto: estariamos mesmo a falar de um concurso de professores para supostos professores ou de um concurso de professores para analfabetos?
Há mesmo coisas que me ultrapassam!
domingo, março 01, 2009
Associações culturais
As associações culturais, enquanto agentes de transmissão de identidade cultural e transformação social, adquirem extrema importância numa determinada região. O que torna realmente um concelho atractivo é, na minha opinião, a diversidade de ofertas em termos culturais. Desde bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, grupos de teatro, marchas populares, clubes desportivos, entre outros, o importante é existir ofertas para todos os gostos, tentando chegar cada vez mais próximo da população.
O direito à livre associação constitui, assim, uma garantia básica de realização pessoal dos indivíduos enquanto seres sociais, e é pena que, actualmente, o associativismo tenha vindo a perder terreno na sociedade. São cada vez menos as pessoas que fazem parte de um grupo cultural, que dão um pouco de si em prol da comunidade em geral, sem que, para isso, tenham de receber algo em troca.
Sempre reconheci a importância das associações culturais na formação plena dos indivíduos, mas isso sou eu, que tive a sorte de ter pais que estiveram sempre ligados a associações e me incentivaram a isso. No entanto, e porque “não há bela sem senão”, não posso deixar de manifestar o meu total desagrado por alguns aspectos que vão caracterizando, de uma maneira geral, algumas associações e que prejudicam, a meu ver, o seu bom funcionamento e credibilidade das mesmas perante a população em geral. Sem mais rodeios, dizer que abomino todo e qualquer aproveitamento dos bens materiais das associações em benefício pessoal; todas aquelas pessoas que, por pertencerem à família ou serem amigas de elementos que fazem parte das colectividades, se acham no direito de acompanhar os grupos, sejam eles folclóricos, teatrais, ou o que quer que sejam, para qualquer sítio que vão, comendo e bebendo à custa do grupo ou da organização que os convidou, e achando-se com os mesmos (ou mais, até!) direitos do que os que dele fazem parte; todas aquelas pessoas que criam cargos que nunca existiram nas colectividades, ou que nunca foram necessários, apenas com o objectivo de fazerem incluir nos grupos pessoas que, de outra forma, nunca lhes pertenceriam.
Bárbara Quaresma (sócia executante de uma colectividade há dezassete anos, por mérito próprio, claro!)
O direito à livre associação constitui, assim, uma garantia básica de realização pessoal dos indivíduos enquanto seres sociais, e é pena que, actualmente, o associativismo tenha vindo a perder terreno na sociedade. São cada vez menos as pessoas que fazem parte de um grupo cultural, que dão um pouco de si em prol da comunidade em geral, sem que, para isso, tenham de receber algo em troca.
Sempre reconheci a importância das associações culturais na formação plena dos indivíduos, mas isso sou eu, que tive a sorte de ter pais que estiveram sempre ligados a associações e me incentivaram a isso. No entanto, e porque “não há bela sem senão”, não posso deixar de manifestar o meu total desagrado por alguns aspectos que vão caracterizando, de uma maneira geral, algumas associações e que prejudicam, a meu ver, o seu bom funcionamento e credibilidade das mesmas perante a população em geral. Sem mais rodeios, dizer que abomino todo e qualquer aproveitamento dos bens materiais das associações em benefício pessoal; todas aquelas pessoas que, por pertencerem à família ou serem amigas de elementos que fazem parte das colectividades, se acham no direito de acompanhar os grupos, sejam eles folclóricos, teatrais, ou o que quer que sejam, para qualquer sítio que vão, comendo e bebendo à custa do grupo ou da organização que os convidou, e achando-se com os mesmos (ou mais, até!) direitos do que os que dele fazem parte; todas aquelas pessoas que criam cargos que nunca existiram nas colectividades, ou que nunca foram necessários, apenas com o objectivo de fazerem incluir nos grupos pessoas que, de outra forma, nunca lhes pertenceriam.
Bárbara Quaresma (sócia executante de uma colectividade há dezassete anos, por mérito próprio, claro!)
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Esquerda, by José Saramago
Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras. Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e connosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.
Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão.
Publicado em O Caderno de Saramago
Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão.
Publicado em O Caderno de Saramago
domingo, fevereiro 08, 2009
Casamento entre homossexuais
Ultimamente, tem-se falado muito acerca dos casamentos entre homossexuais e, como tal, não posso deixar de, publicamente, dar a conhecer a minha bárbara opinião.
Ainda que muito específico em termos de finalidade, o casamento não deixa de ser, mesmo que tentemos mostrar o contrário, um tipo de contrato, como tantos outros, aliás, que assinamos ao longo da vida. Assim sendo, e partindo desse princípio, não posso deixar de abominar toda e qualquer discriminação baseada na orientação sexual que impede duas pessoas do mesmo sexo de o celebrarem.
Todos nós, sem excepções, temos o direito de contrair matrimónio com a pessoa que escolhemos. A não permissão de casamentos entre homossexuais demonstra uma total falta de respeito e tolerância que deve, urgentemente, ser contrariada por todos os Estados que se dizem laicos e democráticos.
O casamento tem de deixar de ser encarado numa perspectiva tradicionalista e religiosa, que apenas serve o fim da procriação, pois, por essa ordem de ideias, todos os heterossexuais que quisessem casar deveriam ser obrigados a ter filhos.
Ainda que muito específico em termos de finalidade, o casamento não deixa de ser, mesmo que tentemos mostrar o contrário, um tipo de contrato, como tantos outros, aliás, que assinamos ao longo da vida. Assim sendo, e partindo desse princípio, não posso deixar de abominar toda e qualquer discriminação baseada na orientação sexual que impede duas pessoas do mesmo sexo de o celebrarem.
Todos nós, sem excepções, temos o direito de contrair matrimónio com a pessoa que escolhemos. A não permissão de casamentos entre homossexuais demonstra uma total falta de respeito e tolerância que deve, urgentemente, ser contrariada por todos os Estados que se dizem laicos e democráticos.
O casamento tem de deixar de ser encarado numa perspectiva tradicionalista e religiosa, que apenas serve o fim da procriação, pois, por essa ordem de ideias, todos os heterossexuais que quisessem casar deveriam ser obrigados a ter filhos.
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Engenheiro Areias
Simplesmente genial! Nunca pensei que uma canção infantil se pudesse coadunar tão bem com o nosso PM...
domingo, janeiro 18, 2009
Vida: direito ou obrigação?!
“Quero morrer. Não sei mais que estou fazendo por aqui. Não vejo sentido em continuar uma existência em que sou apenas um mero observador dos acontecimentos e vidas que me cercam. Dou um grito de angústia expressando esse desejo de fechar os olhos. O que posso fazer para que as pessoas me compreendam?”
Excerto do filme “Mar Adentro”
Entendo a Vida Humana como um processo natural que engloba uma vivência social e individual, regulada pela norma social, mas salvaguardada, sempre, pela livre escolha do indivíduo. Nesse sentido, a propriedade sobre o próprio corpo deve prevalecer como o mais básico sinónimo de liberdade, embora a maior parte das vezes isso não se verifique. Na verdade, conquistámos o direito de manipulação do nosso corpo mas não o de decisão sobre ele. Vivemos, ainda, sob a alçada da retrógrada Igreja, num obscurantismo mórbido que viola, sem qualquer tipo de pudor, a consagração do Estado de Direito.
Mesmo assim, e ainda que muito lentamente, vão-se verificando alguns progressos. A despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez é prova disso. No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer, nomeadamente no que se refere à questão da Eutanásia.
A propósito disso, convém referir que a Vida é um direito inalienável, mas com que direito se tende a manter viva uma pessoa quando ela já nem sequer possui meios para a sua fruição? Recuso-me a aceitar que, a todo o custo, se mantenha vivo alguém que vive artificialmente, sem qualquer perspectiva de melhora, utilizando o argumento de que a Eutanásia é um atentado contra o direito à Vida. Pessoas que utilizam esse tipo de argumentos não devem saber que a Vida não se resume somente ao plano biológico, mas também ao pessoal, social, cultural, económico e psíquico. Pessoas que utilizam este tipo de argumentos esquecem-se de que a Vida não é uma obrigação, mas um direito.
Só é pena que hoje em dia, e num Estado que se diz laico, ainda se continue a seguir os princípios absurdos da Igreja Católica, que, em nome de um qualquer argumento absurdo que diz que o nosso corpo não nos pertence, prefere continuar a prolongar o sofrimento de várias pessoas, demonstrando um profundo egoísmo e uma grande falta de amor e compaixão pelo próximo. Na verdade, e como já alguém dizia, o mais incondicional dos amores é o que deixa o outro partir.
Mesmo assim, e ainda que muito lentamente, vão-se verificando alguns progressos. A despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez é prova disso. No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer, nomeadamente no que se refere à questão da Eutanásia.
A propósito disso, convém referir que a Vida é um direito inalienável, mas com que direito se tende a manter viva uma pessoa quando ela já nem sequer possui meios para a sua fruição? Recuso-me a aceitar que, a todo o custo, se mantenha vivo alguém que vive artificialmente, sem qualquer perspectiva de melhora, utilizando o argumento de que a Eutanásia é um atentado contra o direito à Vida. Pessoas que utilizam esse tipo de argumentos não devem saber que a Vida não se resume somente ao plano biológico, mas também ao pessoal, social, cultural, económico e psíquico. Pessoas que utilizam este tipo de argumentos esquecem-se de que a Vida não é uma obrigação, mas um direito.
Só é pena que hoje em dia, e num Estado que se diz laico, ainda se continue a seguir os princípios absurdos da Igreja Católica, que, em nome de um qualquer argumento absurdo que diz que o nosso corpo não nos pertence, prefere continuar a prolongar o sofrimento de várias pessoas, demonstrando um profundo egoísmo e uma grande falta de amor e compaixão pelo próximo. Na verdade, e como já alguém dizia, o mais incondicional dos amores é o que deixa o outro partir.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
Mais palavras para quê?!
Carta Aberta à Ministra da Educação
Excelentíssima Senhora Ministra da Educação,
Ao fim de três décadas e meia de docência, as políticas educativas do Governo do meu país levaram-me a pedir a aposentação antecipada e com penalização. Fugi da escola pública de hoje. A escola do facilitismo, da mediocridade, da desautorização dos professores, da desumanização, da irresponsabilidade, das estatísticas, da entrega dos deveres aos professores e dos direitos aos alunos,… Não foi para esta escola que dei tantos anos da minha vida. Nem foi assim que pensei terminar uma longa carreira de que gostei muito.
De Amarante a Matosinhos passando por Lisboa, Figueira da Foz, Porto, Espinho, Bragança, Marco de Canavezes, Vila Real, Barcelinhos, Penafiel, Famalicão e S. Pedro da Cova, ajudei a formar milhares de jovens. Foram muitos quilómetros percorridos quando não havia uma única auto-estrada. Mais do que uma vez tive que me sujeitar a ver as minhas três filhas pequeninas apenas aos fins-de-semana para ir, para longe, ensinar os filhos dos outros. Sem nada que me ajudasse a suportar as despesas. Tudo isto fiz com muito sacrifício mas muito gosto. Durante anos e anos amei o que fiz.
Para minha actualização frequentei mais de 50 acções de formação/seminários quer na área de informática, quer na minha área específica.
Fui Directora de Instalações, Representante de Disciplina, Delegada de Grupo, Directora de Turma, Vice-presidente do Conselho Executivo, Presidente do Conselho Administrativo, Representante de Área Disciplinar, Coordenadora de Departamento, Responsável pela Sala de Estudo, Presidente da Assembleia de Escola.
Leccionei todos os níveis de ensino desde o 5º ao 12º ano.
Orgulho-me do trabalho que sempre desenvolvi apesar do desânimo aumentar ano após ano. Nunca aspirei aos prémios que o Ministério atribui anualmente. Os meus prémios são as mensagens que recebo dos meus ex-alunos.
“Boa tarde professora,Não sei se ainda tem esta conta de email activa, mas espero que sim. Eu sou o seu antigo aluno Eduardo …, fui seu aluno de química no ano lectivo de 2004/2005, não sei se ainda se lembra de mim. Eu estou a acabar o meu curso na faculdade, estou já no ultimo ano e sou finalista, como tal, temos a tradição de assinar as fitas e eu gostava que a professora me assinasse a fita, uma vez que a considero a melhor professora que tive ate hoje, pois sempre acreditou em mim e fez todos os possíveis para me ensinar, não só a matéria correspondente a sua disciplina, mas também a ser um homem decente. Para alem de excelente professora, foi também uma grande amiga, que e algo que muitos professores não são e por isso gostava que me desse a honra de me assinar a fita. A minha queima das fitas é já esta semana e tenho de ter as fitas no dia 27, por isso peço resposta a este email o mais rápido possível, caso a professora não possa assinar-me as fitas antes dessa data, não há problema, assina depois pois o que conta para mim é que a fita seja assinada, independentemente da data. Gostava também de lhe pedir um favor…
Peço desculpa pelo incómodo e espero atentamente uma resposta.
Beijos e abraços, do seu antigo aluno e amigo,
Eduardo …”
Ou como esta recebida há dias quando chegou a minha aposentação.
“Soube ontem ao último tempo que a professora tinha recebido a carta da reforma. Vou ser sincero, fiquei muito triste por perder uma das melhores professoras de sempre.Paciente, simpática, honesta, humilde…. são muitas das características que a professora tem.A escola perdeu uma das melhores professoras ao serviço.Pessoalmente n estou triste por perder uma professora mas sim estou triste por ter perdido uma grande amiga que me ajudou sempre.Toda a turma ficou um bocado triste (embora querendo disfarçar através de sorrisos e risos), pois tem a consciência que vai ser difícil substituir uma professora como a s’tora.Diz-se que ninguém é insubstituível, mas a professora é das poucas pessoas que não podem substituídas por nada deste mundo.Aqui está á minha despedida muito humilde, não é que desejaria dar á professora pois o que lhe queria dar está para além dos meus alcances.Só deixo votos de felicidade e desejos que um dia nos voltemos a encontrar.Muitos beijos e abraços:Bruno …”
Pelos Eduardos, pelos Brunos e por todos os alunos que já me passaram pelas mãos, e que me atribuíram “medalhas” aguentei enquanto pude. Agora, acabou.
Vi e ouvi, com tristeza e uma revolta imensa, as posições inqualificáveis de membros do Governo perante a manifestação de 85% dos docentes do meu país. Não consigo aceitar que me apelidem de chantagista com uma leviandade sem nome. Não sou sindicalizada nem filiada em nenhum partido. Sempre pensei pela minha cabeça, disse o que penso, escrevi o que disse e assumi o que escrevo. Durante anos escrevi uma crónica mensal num semanário e insurgi-me contra a avaliação em vigor na altura. Realmente tinha que ser substituída. Mas por uma melhor, o que não é o caso. A mobilização que se conseguiu em Março a em Novembro não foi conseguida pelos sindicatos. Eles não têm capacidade para tal. A internet e o telemóvel são hoje os melhores meios de mobilização. A Senhora Ministra consegui, pela primeira vez, unir os professores e pô-los em contacto permanente uns com os outros.
O dia a dia de um professor é inimaginável por quem não o vive, como é o caso da Senhora Ministra. Pede-se aos professores que sejam, para além de transmissores de conhecimentos, mães, pais, psicólogos, assistentes sociais, amigos, …
“Os professores têm, cada vez mais, à sua frente um conjunto de órfãos de pais vivos.” - uma verdade que li aqui há tempos.
Que posso eu exigir de um aluno que vive com uma mãe com problemas mentais que lhe diz que o odeia e que o quer matar? E de uma jovem que chega às aulas da tarde sem ter comido absolutamente nada? E de uma jovem que vive, a meias com a mãe, com outro homem que não o pai? E de uma criança que dorme na sala e só pode descansar quando os pais resolvem deitar-se? E da jovem que fica a trabalhar no café dos pais até às tantas da madrugada? E poderia ficar aqui um tempo infindo a pôr a nu as situações com que os professores se debatem. Esta é a escola real. Uma escola cheia de problemas cuja resolução compete ao Estado mas com os quais os professores vivem diariamente. Estes jovens não podem ter o rendimento desejável mas, pressionar o professor a passá-los, não lhes resolve os seus problemas. Como não lhes resolve os seus problemas um computador oferecido pelo Governo. Ou o TGV. Ou um novo aeroporto na capital. Mas quem pode manda e define as prioridades que entende. Não são as minhas e não as entendo.
Para juntar a tudo isto, a Senhora Ministra elaborou um modelo de avaliação perfeitamente inaceitável. Diz a Senhora Ministra que os professores devem confiar nos seus colegas mais competentes (refere-se aos professores titulares) mas quem lhes atribuiu essa competência foi a Senhora Ministra ao pôr em prática o mais escandaloso dos concursos - o primeiro concurso para professor titular. “Há coisa mais injusta do que uma avaliação que não premeia o mérito?” - perguntou um dia destes a Senhora Ministra. Claro que não. Mas, pergunto eu, há maior injustiça do que o primeiro concurso para professor titular? E foi com base neste concurso, eivado de injustiças e arbitrariedades, que foi construído este modelo de avaliação. Sobre alicerces podres. Por mais voltas que lhe dêem, será sempre um modelo de avaliação em que a competência estará ausente.
(...)
O Programa Novas Oportunidades é outro embuste. Por aquilo que vejo, e pelas pressões das DREs para aprovar todos os alunos dos Cursos de Educação e Formação, dos Cursos Profissionais e Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, estão a qualificar-se milhares de analfabetos. Será isto que o país precisa, Senhora Ministra?
Segundo a Senhora Ministra, a implementação das aulas de substituição, que tanta polémica gerou, hoje faz-se confortavelmente. Engano, Senhora Ministra. Os professores que conheço, e são muitos, fazem-no porque a tal são obrigados mas fazem-no sem o mínimo de conforto e com o máximo descontentamento dos alunos.
O ambiente que se vive nas escolas é de uma tensão imensa. O desalento e a desmotivação são gerais e o clima de medo está instalado. E ainda vai piorar quando aparecer a figura do director prevista na lei.
O que se fez da escola pública? Como se pode ter toda uma classe profissional desmotivada? Eu saio sem conseguir perdoar a este Governo o ter-me roubado o prazer que eu tinha em exercer a profissão que escolhi. Nestes últimos anos foi muito penoso ir trabalhar. Muito penoso, mesmo.
Maria da Graça Pimentel
9 de Dezembro de 2008
9 de Dezembro de 2008
domingo, outubro 19, 2008
Acto de Escrita
Já há muito que não escrevo, é certo. Estes últimos meses – carregados de acontecimentos – passaram tão vertiginosamente que o meu pensamento e emoções não tiveram sequer ritmo para os acompanhar. Sinceramente, ainda não cheguei a perceber se esse período foi caracterizado pela ausência de pensamentos se por pensamentos em excesso. A verdade é que tanto uma como a outra situação me impossibilitaram de escrever.
Escrever é mentir. Através da escrita, invento pessoas, lugares, objectos que, na realidade, nunca chegaram a existir. São pedaços de Vida que crio na imaginação e que acabam por se tornar reais. Quando escrevo, sinto a alegria e a tristeza das personagens que invento como se das minhas próprias alegrias e tristezas se tratasse. No fundo, estas invenções traduzem o desejo que todos nós possuímos de ter outra vida que não a nossa. Por isso, quando alguém me diz que, mesmo que tivesse a oportunidade de voltar atrás no tempo, não alteraria nada na sua Vida, não acredito. Há sempre algo, por mais ínfimo que seja, que gostaríamos de ver alterado. E é, por essa razão, que criamos estórias, um mundo fictício que desejaríamos ser o nosso.
Sempre estive convicta de que a verdadeira Saudade é aquela que sentimos pela pessoa que nunca chegámos a ser.
Escrever é mentir. Através da escrita, invento pessoas, lugares, objectos que, na realidade, nunca chegaram a existir. São pedaços de Vida que crio na imaginação e que acabam por se tornar reais. Quando escrevo, sinto a alegria e a tristeza das personagens que invento como se das minhas próprias alegrias e tristezas se tratasse. No fundo, estas invenções traduzem o desejo que todos nós possuímos de ter outra vida que não a nossa. Por isso, quando alguém me diz que, mesmo que tivesse a oportunidade de voltar atrás no tempo, não alteraria nada na sua Vida, não acredito. Há sempre algo, por mais ínfimo que seja, que gostaríamos de ver alterado. E é, por essa razão, que criamos estórias, um mundo fictício que desejaríamos ser o nosso.
Sempre estive convicta de que a verdadeira Saudade é aquela que sentimos pela pessoa que nunca chegámos a ser.
terça-feira, junho 03, 2008
Doenças modernas
1.
Irrita-me profundamente quando ouço dizer que determinada criança é hiperactiva e que, por esse motivo, devo ter mais calma ao lidar com ela. No meu tempo, à hiperactividade dava-se o nome de falta de educação que, com uns bons tabefes, se resolvia. Ai se resolvia!
2.
É moda hoje em dia ter uma depressão. Depressões por tudo e por nada. Porque é de bom tom tomar uns comprimidozitos. Não porque nos drogamos, mas porque estamos doentes. Como é bom estar doente. Ouvi um dia alguém dizer que as depressões são para quem tem tempo e dinheiro. Subscrevo na íntegra!
Irrita-me profundamente quando ouço dizer que determinada criança é hiperactiva e que, por esse motivo, devo ter mais calma ao lidar com ela. No meu tempo, à hiperactividade dava-se o nome de falta de educação que, com uns bons tabefes, se resolvia. Ai se resolvia!
2.
É moda hoje em dia ter uma depressão. Depressões por tudo e por nada. Porque é de bom tom tomar uns comprimidozitos. Não porque nos drogamos, mas porque estamos doentes. Como é bom estar doente. Ouvi um dia alguém dizer que as depressões são para quem tem tempo e dinheiro. Subscrevo na íntegra!
segunda-feira, maio 12, 2008
Divórcio Litigioso
São já do conhecimento geral as propostas apresentadas pelo Governo no sentido de facilitar o divórcio aos portugueses. Como todos sabem, quando uma pessoa casada pretende pôr fim à relação matrimonial, tem hoje duas hipóteses: ou obtém o consentimento do cônjuge, e ver-se-á divorciada a curto prazo e a custo razoável; ou não o obtém e terá de provar que a culpa da situação é do cônjuge, acabando por vir a pagar muito em tempo e em dinheiro.
Na minha opinião, esta situação é fortemente injusta. Por um lado, porque prolonga indefinida e desnecessariamente situações de conflito; por outro lado, porque protege os mais fortes, ou seja, num casal em que só um dos cônjuges tenha rendimentos próprios, ou em que o rendimento de um seja muito superior ao rendimento do outro, o mais rico pode fazer prolongar os processos, dificultando a vida do outro.
A Família é muito importante, sem dúvida, mas manter um casamento só porque um dia alguém nos disse que este deveria ser para toda a vida, porque a Igreja assim o quer, é um erro muito grave. O casamento só faz sentido se existir Amor, se existir respeito e cumplicidade entre o casal, caso contrário, só acarretará sofrimento, principalmente se estiverem filhos envolvidos.
Sou, por isso, a favor do fim do divórcio litigioso, na medida em que o considero uma prática arcaica que vê o Homem como um objecto e não como uma pessoa. Reconheço, assim, que foi uma boa proposta apresentada pelo Governo, talvez das únicas nestes últimos tempos, e que só peca, no entanto, por ter sido avançada tardiamente, uma vez que, já há um ano atrás, um dos partidos da oposição avançou com essa mesma proposta.
Na minha opinião, esta situação é fortemente injusta. Por um lado, porque prolonga indefinida e desnecessariamente situações de conflito; por outro lado, porque protege os mais fortes, ou seja, num casal em que só um dos cônjuges tenha rendimentos próprios, ou em que o rendimento de um seja muito superior ao rendimento do outro, o mais rico pode fazer prolongar os processos, dificultando a vida do outro.
A Família é muito importante, sem dúvida, mas manter um casamento só porque um dia alguém nos disse que este deveria ser para toda a vida, porque a Igreja assim o quer, é um erro muito grave. O casamento só faz sentido se existir Amor, se existir respeito e cumplicidade entre o casal, caso contrário, só acarretará sofrimento, principalmente se estiverem filhos envolvidos.
Sou, por isso, a favor do fim do divórcio litigioso, na medida em que o considero uma prática arcaica que vê o Homem como um objecto e não como uma pessoa. Reconheço, assim, que foi uma boa proposta apresentada pelo Governo, talvez das únicas nestes últimos tempos, e que só peca, no entanto, por ter sido avançada tardiamente, uma vez que, já há um ano atrás, um dos partidos da oposição avançou com essa mesma proposta.
segunda-feira, março 31, 2008
Acordo Ortográfico
Parece que o já tão falado Acordo Ortográfico entre Portugal, Brasil e os PALOP voltou a ser tema de conversa e, como seria de esperar, não tardou ver alguns sectores da mais variada cor política e ideológica mostrarem a sua indignação face ao assassinato da Língua-Mãe.
A meu ver, Portugal só tem a ganhar com este Acordo. Por um lado, porque a existência de uma única norma oficial acarreta vantagens na aprendizagem da Língua Portuguesa enquanto Língua Estrangeira, independentemente do local onde essa aprendizagem ocorra, contribuindo, desse modo, para a Universalização da Língua e do crescimento do Mundo Lusófono, tão importantes, aliás, para a economia portuguesa. Por outro lado, porque, com o Acordo, torna-se quase inexistente o fosso entre a língua escrita e a língua falada, no caso concreto da eliminação das consoantes mudas do português europeu.
Alguns conservadores e puristas da Língua tendem a apontar como argumento (e porque não têm nenhum mais credível) a raiz etimológica das palavras, que explica, por exemplo, o facto de mantermos o «h» na palavra “humilde”, uma vez que ela provém do latim “humus”. Segundo eles, trata-se de preservar, na grafia da palavra, a memória histórica da sua origem, como que uma questão de identidade. Acontece que este argumento nacionalista, segundo o meu ponto de vista, deixa antever um conservadorismo extremo que, por norma, tende a resistir a todas as mudanças ortográficas, esquecendo-se de que a Língua é uma convenção criada pelos homens, e, tal como tudo, tem de evoluir e se transformar, caso contrário ainda hoje escreveríamos pharmácia, por exemplo.
A esta resistência à mudança, invocando factores nacionalistas e de domínio exclusivo da Língua, como se a Língua Portuguesa fosse exclusiva dos portugueses, sem pararmos para pensar que nem sequer somos o país mais influente e populoso a falar o Português, dou o nome de fundamentalismo, fundamentalismo esse que tem como consequência a alternativa salazarista do “orgulhosamente sós”. É isso que queremos?!
A meu ver, Portugal só tem a ganhar com este Acordo. Por um lado, porque a existência de uma única norma oficial acarreta vantagens na aprendizagem da Língua Portuguesa enquanto Língua Estrangeira, independentemente do local onde essa aprendizagem ocorra, contribuindo, desse modo, para a Universalização da Língua e do crescimento do Mundo Lusófono, tão importantes, aliás, para a economia portuguesa. Por outro lado, porque, com o Acordo, torna-se quase inexistente o fosso entre a língua escrita e a língua falada, no caso concreto da eliminação das consoantes mudas do português europeu.
Alguns conservadores e puristas da Língua tendem a apontar como argumento (e porque não têm nenhum mais credível) a raiz etimológica das palavras, que explica, por exemplo, o facto de mantermos o «h» na palavra “humilde”, uma vez que ela provém do latim “humus”. Segundo eles, trata-se de preservar, na grafia da palavra, a memória histórica da sua origem, como que uma questão de identidade. Acontece que este argumento nacionalista, segundo o meu ponto de vista, deixa antever um conservadorismo extremo que, por norma, tende a resistir a todas as mudanças ortográficas, esquecendo-se de que a Língua é uma convenção criada pelos homens, e, tal como tudo, tem de evoluir e se transformar, caso contrário ainda hoje escreveríamos pharmácia, por exemplo.
A esta resistência à mudança, invocando factores nacionalistas e de domínio exclusivo da Língua, como se a Língua Portuguesa fosse exclusiva dos portugueses, sem pararmos para pensar que nem sequer somos o país mais influente e populoso a falar o Português, dou o nome de fundamentalismo, fundamentalismo esse que tem como consequência a alternativa salazarista do “orgulhosamente sós”. É isso que queremos?!
domingo, março 23, 2008
Reflexão
Certo dia, numa das muitas viagens que fiz na automotora Lousã-Coimbra, um senhor, com aspecto pouco asseado, virou-se para mim e disse:
- Não leve a mal dizer-lhe isto, menina, mas... É que eu sou da Quercus e acho que devia tirar o sapato de cima do banco.
Apesar de só lá ir a tocar com a parte de cima da bota, educadamente, fiz o que me pediu; no entanto, uma questão não me saía da cabeça... Por que razão tive eu de tirar o pé quando ele, com aquela roupa que não via água desde que, se calhar, foi comprada, pôde ir lá sentado?!
domingo, fevereiro 17, 2008
Dó Maior ou Dó Menor?!
Uma das grandes lacunas do Ensino Português prende-se com o facto de desvalorizar, quase por completo, o Ensino Artístico, mais concretamente o Ensino da Música. Esta lacuna tem atravessado sucessivos governos e traduz, sem dúvida, a incompetência e falta de sensibilidade no que toca a assuntos relacionados com a Educação. O Governo, e a população em geral, têm de perceber que aprender música não é um capricho, nem muito menos uma forma inconsequente de ocupação dos tempos livres. Aprender música é muito mais do que isso: é desenvolver o gosto e a sensibilidade, o espírito crítico e lógico, a criatividade e o saber estar, o rigor e disciplina.
Como se isso não bastasse, o Ministério da Educação decidiu, a bem da Generalização do Ensino da Música, deixar de financiar a Iniciação Musical nos Conservatórios (a alunos do 1º ciclo) e extinguir o Regime Supletivo (em que os alunos frequentam, a par do Conservatório, a Escola Oficial).
Quanto ao Ensino da Música no 1º ciclo, se, por um lado, sou a favor, na medida em que o desenvolvimento do gosto musical deve começar desde cedo; por outro lado, tenho perfeita consciência de que a forma como as aulas são ministradas não se adequa, de todo, às necessidades de um aluno que, por exemplo, se queira especializar em Música. Como alguns devem saber, muitos dos professores que leccionam Música no 1º ciclo, no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular, nem sequer têm formação para isso. Além do mais, não me parece que aprender “O Balão do João” em flauta de bisel e acompanhar músicas infantis com pandeireta seja o melhor método educativo para um aluno que mostre uma grande aptidão para a Música. Essas aulas são importantes, sim, mas apenas para estabelecer um primeiro contacto com a Música. Quem se quiser aperfeiçoar nesta área necessita de outro tipo de aulas, as até então ministradas pelos Conservatórios.
No que à extinção do Regime Supletivo diz respeito, apetece-me fazer uma pergunta à Senhora Ministra: aos 10 anos já sabia o que queria ser quando fosse grande? É que a extinção do Regime Supletivo vai fazer com que um aluno, aos 10 anos, ao optar (obrigado) pelo Regime Integrado (formação geral e artística no Conservatório), já saiba, de antemão, que é da Música que quer viver.
Nada melhor do que acabar com as sábias palavras de um músico, que, espero eu, vos façam reflectir sobre tudo isto, o Maestro Vitorino de Almeida: “Num ponto sou incondicional – a Formação Musical tem de ser dada nos Conservatórios. O ensino a sério é especializado e só um número restrito de alunos chega até ele. Porque uma coisa é não se querer ser um ignorante musical, outra coisa é querer ser-se músico.”
Como se isso não bastasse, o Ministério da Educação decidiu, a bem da Generalização do Ensino da Música, deixar de financiar a Iniciação Musical nos Conservatórios (a alunos do 1º ciclo) e extinguir o Regime Supletivo (em que os alunos frequentam, a par do Conservatório, a Escola Oficial).
Quanto ao Ensino da Música no 1º ciclo, se, por um lado, sou a favor, na medida em que o desenvolvimento do gosto musical deve começar desde cedo; por outro lado, tenho perfeita consciência de que a forma como as aulas são ministradas não se adequa, de todo, às necessidades de um aluno que, por exemplo, se queira especializar em Música. Como alguns devem saber, muitos dos professores que leccionam Música no 1º ciclo, no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular, nem sequer têm formação para isso. Além do mais, não me parece que aprender “O Balão do João” em flauta de bisel e acompanhar músicas infantis com pandeireta seja o melhor método educativo para um aluno que mostre uma grande aptidão para a Música. Essas aulas são importantes, sim, mas apenas para estabelecer um primeiro contacto com a Música. Quem se quiser aperfeiçoar nesta área necessita de outro tipo de aulas, as até então ministradas pelos Conservatórios.
No que à extinção do Regime Supletivo diz respeito, apetece-me fazer uma pergunta à Senhora Ministra: aos 10 anos já sabia o que queria ser quando fosse grande? É que a extinção do Regime Supletivo vai fazer com que um aluno, aos 10 anos, ao optar (obrigado) pelo Regime Integrado (formação geral e artística no Conservatório), já saiba, de antemão, que é da Música que quer viver.
Nada melhor do que acabar com as sábias palavras de um músico, que, espero eu, vos façam reflectir sobre tudo isto, o Maestro Vitorino de Almeida: “Num ponto sou incondicional – a Formação Musical tem de ser dada nos Conservatórios. O ensino a sério é especializado e só um número restrito de alunos chega até ele. Porque uma coisa é não se querer ser um ignorante musical, outra coisa é querer ser-se músico.”
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Parabéns, Carlos do Carmo!
Apesar de não ter sido esta a música que fez com que Carlos do Carmo tivesse ganho o prémio Goya, nunca é demais lembrar este excelente intérprete, bem português, e de quem eu tanto me orgulho... A escolha desta canção...bem, simplesmente porque é uma das que eu mais gosto. Parabéns, Carlos do Carmo! Parabéns, Portugal!
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